domingo, 19 de setembro de 2010

É mais fácil suportar a morte sem pensar nela do que suportar o pensamento da morte sem morrer

      Num bar muito longe daqui se encontravam várias mortes. Cada uma com seus problemas, com vidas a terminar por todo esse vasto mundo. Mas enfim, estavam nos seus devidos "happy hours", se é que há algum para mortes. Estavam cansadas de tanto matar por aí.. E numa mesa, a do canto, algumas sentadas conversavam.
     Estavam lá diversas delas. Uma mais pálida, porém a mais conhecida: a morte por Gripe A. Tinha uma outra, bem ao seu lado, mais triste, porém rápida. Quase hiperativa: a morte por miningite. Outra lá, mais apagada, nem aparecia muito. Porém, sempre aparecia nas horas mais inesperadas e impressionava todos a sua volta: a morte por ataque cardíaco fulminante. Existia até uma outra, pouco conhecida, mas existia. E ela, por sua vez, também era rápida, mas as vezes era devagar. Não tinha hora nem lugar, simplesmente ela aparecia. Era a temida: Aneurisma. E tinha uma outra, que estava até sumida, mas agora com o tempo esquentando ela apareceu de novo: a Dengue hemorrágica. 
      A conversa se resumia em uma unica morte: a do câncer, que a cada ano vinha crescendo. Ela fazia o ser humano sofrer, agonizar e sempre o vencia no cansaço. Ele cansava de tanto lutar, tantas cirurgia, e se entregava a ela. Ela o acolhia, tirava sua dor e o fazia descansar eternamente. O problema é que ela estava muito acabada de tanto trabalhar. E acabava não dando conta de tantos humanos a arrancar a vida, e então eles passavam mais tempo sofrendo. A "hora de ir embora" passava, então outras mortes tinham, muitas vezes, se encarregar desse papel. As vezes a por infecção, ou até a gripe.
      Mas o grande problema seria por que isso era injusto. Uma delas até pensava consigo :"mas também pudera, com tantas drogas, tanto rancor, como que não iria sobrar para o câncer?" Enfim, não havia nada que elas pudessem fazer. E durante alguns segundos percebi que muitos olhares se dirigiam para a porta. Todas olharam. Fiquei abismada com a luz que entrou pela porta. Cheguei a tentar fechar os olhos. Muita luz... Tentei ver do que se tratava e então foi aí que percebi da onde vinha tanta luz. Era uma das mortes também, porém a mais bela de todas. Olhos de paz. Pele branca como a neve... Só podia ser uma e era ela mesma: a morte natural.
      Logo atrás vinha uma outra. Não tão bonita, era escura, trazia uma grande escuridão consigo. E um olhar de revolta. De inconformismo. Essa eu nem fiz questão de olhar. Não valia a pena. Todos já cuxixavam "hoje ela trabalhou, está mais pesada que antes..". Era o suicídio. 
     E assim, todas as mortes foram chegando, chegando, para conversarem sobre seus dias. E de repente alguma delas, não sei bem qual, exclamou :" a morte do ataque cardíaco saiu de "fininho". E ela nem avisou, novamente." 

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